Neste sábado, a frequência foi fraca, provavelmente por causa de outras atividades que rolaram dentro e fora da Fespsp, inclusive uma tradicional viagem à cidade de Tietê.
No debate, notamos que vários temas se entrelaçam no filme: aquele de caráter detetivesco do início (afinal, quem matou o falecido?), a questão do injusto encarceramento de um eventual inocente, o ambiente das prisões femininas (prisão, em geral, é assunto "masculino"; por isso, esse filme talvez se inscreva no chamado "cinema feminista"), as relações homossexuais nessas prisões (e, claro, nas prisões masculinas também), o conflito em torno da guarda ("posse"?) da criança, etc.
O tema das prisões especiais para grávidas ou para convívio das mães e suas crianças recém-nascidas (ou um pouco maiorzinhas) prevalece e dá o tom. Todos os outros temas — que, por si sós, já valeriam tantos outros filmes — são vistos na perspectiva de ocorrerem nesse tipo de prisão. Nessas circunstâncias, caberia o final "aberto" (com as pessoas que desembarcam em outro país indo cada qual para um lado), em que nada se resolve, ou a "solução" de todos os conflitos e de todas as relações amorosas por meio de uma fuga meio desajeitada?
Enfim, achamos o filme um tanto desequilibrado, alternando bons e maus momentos cinematográficos. A opressão do confinamento está bem resolvida, com um bom trabalho conjugado de câmera e fotografia. A sequência das mães levando as crianças para o pré-escola dentro da cadeia é excepcional. Os sinais físicos da gravidez da protagonista também: a atriz esteve de fato grávida ou foi "maquiada"? A animação da abertura também foi elogiada. Mas a presença e as ações pendulares do personagem interpretado por Santoro são inúteis ou incompreensíveis, a não ser para mostrar que todos os homens são uns canalhas. E a sequência da "rebelião" das detentas é muito pobre, talvez por causa das limitações impostas pelo fato de se filmar em ambiente real.
Como ficou observado em algumas críticas e resenhas que examinamos, "Leonera" remete a "Carandiru" (aliás, temos aqui uma coincidência da qual nem nós mesmos nos demos conta: 20 anos do Carandiru real), mas perde na comparação com o filme de Babenco. Este tópico poderia ser desenvolvido. (Frank Ferreira)
2 de outubro de 2012
Debatendo "Leonera"
Marcadores:
cinema argentino,
Frank Ferreira,
Pablo Trapero
24 de setembro de 2012
Nossa próxima atração: "Leonera", em 29/9/2012
CINECLUBE DARCY RIBEIRO apresenta Leonera (Leonera, 2008, Argentina/Brasil/Coréia
do Sul, 113 min, cor)
Direção:
Pablo Trapero. Roteiro: Pablo Trapero, Alejandro Fadel, Martín Mauretegui, Santiago
Mitre. Fotografia: Guillermo Nieto. Montagem: Ezequiel Borovinsky, Pablo
Trapero. Música: Intoxicados, Chango Spasiuk, Los Palmeras. Elenco: Martina
Gusman, Elli Medeiros, Rodrigo Santoro e outros.
Maternidade, solidão, amor,
confinamento e esperança
“Fatos e números: o cenário do filme
Na Argentina,
apenas 7% do número total de homicídios cometidos por homens resultam de
acessos de paixão. No caso das mulheres, 72% são crimes de paixão.
Escolaridade
das mulheres quando ingressam nas prisões: 37% nunca estudaram; 42% completaram
o ensino fundamental; 9% terminaram o ensino médio; só 2% ingressaram no ensino
superior.
A
Penitenciária Feminina Unidade nº 31 “Nuestra Señora de San Nicolás”, em
Ezeiza, foi inaugurada em 1996, depois de uma rebelião na Unidade nº 3, que
era, até então, o único presídio federal para mulheres. Alegou-se que a nova
prisão serviria para proteger as internas grávidas e as mães encarceradas com
suas crianças.
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| Martina Gusman ("Julia") |
Em 1997, a
lei ampliou de dois para quatro anos o período máximo de permanência de
crianças no interior de prisões. Na atualidade, 114 crianças com menos de 4
anos de idade viviam na Unidade nº 31; 63 eram nascidas na prisão e 37 nunca
haviam passado para o outro lado dos seus muros.
Apenas 40%
das presas eram condenadas. As outras 60% eram rés de processos sem sentenças
transitadas em julgado.
As crianças
que crescem em prisões adquirem os hábitos da vida carcerária e muitas vezes
desenvolvem medo de espaços abertos. Também manifestam manias tais como recusa
a abrir ou fechar portas. As crianças que vivem fora da prisão brincam de esconder,
as criadas atrás das grades só brincam nas ‘horas de visita’.
Notas da produção
‘Leonera’ foi
filmado na província de Buenos Aires, entre setembro e dezembro de 2007. Como
nunca antes na cinematografia argentina, foi rodado, na maior parte, dentro de
uma penitenciária de segurança máxima, com verdadeiros internos como extras.
Alguns dos
personagens guardas e agentes prisionais também foram interpretados por
funcionários do Sistema Penitenciário Buenairense.
As filmagens
foram feitas atrás das gredes. Todo o elenco e a equipe técnica conviveram com
o sistema penitenciário na maior parte da produção.
Muitas vezes,
obter permissão para trabalhar nesses locais e com esses atores parecia mais
uma tarefa judiciária do que uma filmagem. Foram necessárias autorizações
legais, carimbos, documentos e assinaturas de muitas autoridades.
Notas do diretor
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| Pablo Trapero |
‘Olha, papai!
É cor de rosa!’, disse Matei, que tinha 4 anos. Tirei os olhos da rodovia e vi
aqueles blocos de concreto enormes, unidades penitenciárias. De fato, uma era
colorida.
As palavras
de meu filho sobre o detalhe cromático dos muros foram a semente de ‘Leonera’.
Unidades em
que vivem mulheres com crianças. Crianças que perdem sua liberdade para ficar
perto das mães. Mães que fariam qualquer coisa pelo bem-estar de suas crianças,
mesmo quando o confinamento trama contra esse direito elementar.
Durante a
pesquisa, descobrimos que essa realidade é fruto de um esquema conhecido que se
repete nos sistemas penitenciários de muitos países.
O estranho é
que poucos concordam sobre a idade máxima até a qual uma criança pode viver na
prisão. Alguns acham que é 1 ano e meio; outros, 6 anos. Na Argentina, é até os
4 anos. Novos desacordos e uma certeza: as sociedades ignoram esta situação,
poucos ousam erguer a voz em defesa desta ou daquela posição. É duro ver
crianças na prisão; mais duro ainda é legislar em favor destas crianças
inocentes.
O objetivo de
‘Leonera’ é construir não só uma narrativa cinematográfica, mas também espaço
para debate e reflexão. Maternidade, solidão, amor, confinamento e esperança
são os eixos deste filme” (adaptado do press release do filme).
CINECLUBE DARCY RIBEIRO
Depois
de um grande filme, sempre um bom debate
Data: sábado, dia 29 de setembro de 2012
Hora: 13h
Local: Sala Florestan Fernandes (r. General
Jardim, 522, Casarão, próximo à estação República do metrô)
Marcadores:
cinema argentino,
Pablo Trapero
18 de setembro de 2012
Registro Fotográfico: 15.09.2012 - "Desmundo"
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| Frank fazendo apresentação inicial antes de começarmos a sessão |
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| Debatedora Convidada: Roteirista, inclusive de Desmundo, Sabina Anzuategui |
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| Debatedora convidada: Profª.Drª. Eliana Asche |
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| Ricardo Streich e Sabina Anzuategui |
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| Debate |
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| Sidnei Veja mais fotos |
12 de setembro de 2012
Nossa próxima atração: "Desmundo", em 15/9/2012
Direção:
Alain Fresnot. Roteiro: Sabina Anzuategui, Alain Fresnot, Helder Ferreira.
Fotografia: Pedro Farkas. Montagem: Junior Carone, Alain Fresnot, Mayalu
Oliveira. Música: John Neschling. Elenco: Simone Spoladore, Osmar Prado, Caco
Ciocler, Berta Zemel, Beatriz Segall e outros.
Ao contrário
da quase totalidade dos filmes que procuram representar fatos da história
brasileira, Desmundo não é
ridiculamente grandioso, gratuitamente irônico ou equivocadamente exótico. Na
crueza da minuciosa reconstituição de época, vislumbram-se seres humanos —
colonos portugueses, padres, freiras e noviças órfãs, indígenas escravizados —
em ambientes, atividades e interações que bem podem ter sido aquelas que de
fato ocorreram nos primeiros anos da ocupação da América pelos europeus.
Ou seja, nada
de eufórica transferência dos melhores aspectos socioculturais lusitanos para
as terras recém-descobertas, onde se irmanariam à inata nobreza e à profunda
sabedoria dos locais. Isso é bem diferente do que faz crer certa visão
eurocêntrica que romantiza, idealiza e falseia pessoas e fatos. É isso que se vê
em Desmundo: a violência de gente
enlouquecida de desejo em contraste com um ambiente extremamente hostil, no
qual se transtornam as certezas, se emporcalham as crenças e se subvertem as
esperanças. Nesse contexto, a religião, por exemplo, que se propõe a regular as
relações interpessoais, naturaliza o abuso e humilha a pureza.
Ainda nessa
perspectiva realista, Desmundo
distingue-se do ilusionismo melodramático recorrente na cinematografia
inspirada em Hollywood pela opção de apresentar personagens que se exprimem na
linguagem da época. (Já nos acostumamos com cavaleiros medievais, indígenas
norte-americanos, asiáticos, extraterrestres, etc. que discursam fluentemente
em inglês.) O diretor Alain Fresnot encarregou o escritor, pesquisador e
linguista Helder Ferreira de recriar em português arcaico os diálogos do filme.
Foi feito um elaborado trabalho de adaptação que, a partir de fontes diretas e
indiretas, considerou não só a época (primeiras décadas do século XVI) como a
condição social e de gênero dos falantes e até a presença de traços
remanescentes de falares anteriores.
Assim, foi
necessário recorrer a legendas em linguagem atual para benefício dos espectadores.
As escolhas do diretor
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| Caco Ciocler ("Ximeno") |
Alain Fresnot
nasceu em Paris, em 1951, e veio para o Brasil com 8 anos. Exerceu e exerce
quase todas as funções na atividade cinematográfica. Participou do grupo
fundador da Tatu Filmes, empresa que ajudou a definir o perfil do cinema
paulistano na década de 1980. É bem conhecido como montador — 31 títulos,
dentre os quais O homem que virou suco
(João Batista de Andrade, 1981) e A marvada
carne (André Klotzel, 1987) — e também como roteirista, diretor assistente e
produtor. Como diretor, além de Desmundo,
realizou os longas-metragens Trem
fantasma (1976), Lua cheia (1988),
Ed Mort (1997) e Família vende tudo (2011), entre outras obras.
O “toque feminino” da roteirista
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| Simone Spoladore ("Oribela") |
A curitibana
Sabina Anzuategui — roteirista, escritora, professora universitária e blogueira
— vai debater o filme de Fresnot com os participantes do Cineclube Darcy
Ribeiro, no dia 15 de setembro próximo. Será uma excelente oportunidade não só
de conhecer as vicissitudes dessa realização, como aspectos da tarefa de
roteirização, em especial quando se trata de adaptar uma obra literária à
linguagem cinematográfica.
CINECLUBE DARCY RIBEIRO
Depois
de um grande filme, sempre um bom debate
Debatedoras
convidadas:
Sabina Anzuategui, doutora em Audiovisual pela ECA-USP,
professora de técnicas de roteirização na Cásper Líbero, escritora e roteirista
Eliana Asche, graduada em Letras pela USP, doutora
em Pedagogia pela PUC-SP, professora de Comunicação e Expressão na FESPSP,
idealizadora do Projeto Literatura Espalhada de distribuição gratuita de livros
Este
debate faz parte da programação do II Seminário de Leitur LiteraSampa,
promovido pelo Polo LiteraSampa (http://literasampa.blogspot.com.br/).
Data: sábado, dia 15 de setembro de 2012
Hora: 13h
Local: Sala Florestan Fernandes (r. General
Jardim, 522, Casarão, próximo à estação República do metrô)
Marcadores:
Alain Fresnot,
cinema brasileiro,
Sabina Anzuategui
2 de setembro de 2012
Nossas atividades recentes
CINECLUBE DARCY RIBEIRO apresenta Um método perigoso (A
dangerous method, 2011, Reino Unido/Alemanha/Canadá/Suiça, 99 min, cor)
Direção: David Cronenberg.
Roteiro: Christopher Hampton, John Kerr. Fotografia: Peter Suschitzky.
Montagem: Ronald Sanders. Música: Howard Shore. Elenco: Keira Knightley, Viggo
Mortensen, Michael Fassbender e outros.
O crítico
Luiz Zanin Oricchio, cuja formação inclui a psicanálise, escreveu em seu
blogue, em 31 de março de 2012, na época de lançamento deste filme no Brasil:
“Sabina
Spielrein [...] na pele de Keira Knightley, é figura central de Um método perigoso, filme em que David
Cronenberg relata um dos pontos nevrálgicos da aventura psicanalítica, a
rivalidade entre Sigmund Freud e seu seguidor, Carl Gustav Jung, nessa que foi
uma das notáveis sagas intelectuais do século 20. [...]
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| Keira Knightley e Michael Fassbender |
O que
Cronenberg revela, no entanto, é que, em meio a discussões teóricas, disputas
clínicas e ideológicas, fervia o furor do sexo. O que não chega a ser surpresa,
dado que o próprio Freud o coloca no centro da psique humana como motor oculto
e às vezes visível de suas mais nobres motivações.
Sabina era
russa e fora estudar medicina em Zurique. Num estado de sofrimento mental
desesperador, busca tratamento com Jung. Apaixona-se pelo analista. Jung e
Sabina tornam-se amantes. Naquele tempo, Freud havia designado Jung seu
sucessor e procura interferir nesse relacionamento de todo indesejado pela
política da psicanálise, uma disciplina nova que vivia sob o cerco da medicina
psiquiátrica tradicional. Esse é período abordado por Cronenberg. [...]”
O indesejado terceiro
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| Michael Fassbender (à esq.) e Viggo Mortensen |
“Foi uma
decisão sábia. Em vez de nos debruçarmos sobre controvérsias teóricas tediosas
para leigos, próprias do nascimento de uma disciplina polêmica, temos ao vivo
os conflitos inscritos sobre a própria carne da personagem. Ou, seria melhor
dizer, na carne dos personagens, já que Jung cede prazerosamente, mas não sem
culpa, às tentações do métier. Era
casado, e com uma mulher muito rica, que lhe proporciona vida confortável na
aprazível Suíça. Mais velho, Freud cumpre o papel de terceiro indesejado nessa
relação a dois. Aquele que interfere de forma paternal, mas não deixa de
vislumbrar nem os encantos da moça nem a sedução do modo de vida de Jung, muito
mais folgado e colorido que o seu. [...]
Cronenberg
acerta, também, ao evitar seu gosto pelo grotesco e dar às cenas tratamento
visual límpido, vagamente hiper-realista. Quando apresentou seu filme no
Festival de Veneza do ano passado, justificou a opção, dizendo que lhe parecia
a melhor para retratar história tão obscura. Mostrou também a preocupação em
ser justo com os personagens. Disse que, quando alguém faz um filme biográfico,
no fundo, as suas próprias inquietações é que são colocadas na tela, através de
outros personagens. ‘É uma espécie de ressurreição dessas pessoas já mortas, e
algo sempre imperfeito’, disse. Esses ‘simulacros’ são suficientemente
verdadeiros? É uma inquietação do diretor.”
Atração e oposição
“De qualquer
forma, Viggo Mortensen e Michael Fassbender propõem um Freud e um Jung bastante
críveis. Não precisam ser parecidos fisicamente com os personagens reais (não o
são). Basta que compreendam de maneira profunda o que atraía e o que opunha os
dois grandes homens para que transmitam à história essa impressão de verdade a
que chamamos verossimilhança. Isto é, a construção da verdade interna a partir
da narrativa.
Entre os
dois, a figura em aparência frágil, mas de fato poderosa da sexualidade,
encarnada em Sabina. Fator que primeiro aproximou os dois homens e que terminou
por separá-los.”
CINECLUBE DARCY RIBEIRO
Depois
de um grande filme, sempre um bom debate
Debatedoras
convidadas: Anna Silvia Rosal de Rosal,
professora da FESPSP, Lilian Donatti,
psicóloga junguiana, mestranda da PUC-SP, e Maria Regina de Moura Friedmann, psicoterapeuta psicanalítica e
membro da Associação de Psicoterapia Psicanalítica (APP)
Data: sábado, dia 1º de setembro de 2012
Hora: 13h
Local: Auditório da FESPSP (r. General
Jardim, 522, 7º andar, próximo à estação República do metrô)
Marcadores:
coprodução Reino Unido/Alemanha/Suíça/Canadá,
David Cronenberg,
Freud,
Jung
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