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2 de outubro de 2012

Debatendo "Leonera"

Neste sábado, a frequência foi fraca, provavelmente por causa de outras atividades que rolaram dentro e fora da Fespsp, inclusive uma tradicional viagem à cidade de Tietê.

No debate, notamos que vários temas se entrelaçam no filme: aquele de caráter detetivesco do início (afinal, quem matou o falecido?), a questão do injusto encarceramento de um eventual inocente, o ambiente das prisões femininas (prisão, em geral, é assunto "masculino"; por isso, esse filme talvez se inscreva no chamado "cinema feminista"), as relações homossexuais nessas prisões (e, claro, nas prisões masculinas também), o conflito em torno da guarda ("posse"?) da criança, etc. 

O tema das prisões especiais para grávidas ou para convívio das mães e suas crianças recém-nascidas (ou um pouco maiorzinhas) prevalece e dá o tom. Todos os outros temas — que, por si sós, já valeriam tantos outros filmes — são vistos na perspectiva de ocorrerem nesse tipo de prisão. Nessas circunstâncias, caberia o final "aberto" (com as pessoas que desembarcam em outro país indo cada qual para um lado), em que nada se resolve, ou a "solução" de todos os conflitos e de todas as relações amorosas por meio de uma fuga meio desajeitada?

Enfim, achamos o filme um tanto desequilibrado, alternando bons e maus momentos cinematográficos. A opressão do confinamento está bem resolvida, com um bom trabalho conjugado de câmera e fotografia. A sequência das mães levando as crianças para o pré-escola dentro da cadeia é excepcional. Os sinais físicos da gravidez da protagonista também: a atriz esteve de fato grávida ou foi "maquiada"? A animação da abertura também foi elogiada. Mas a presença e as ações pendulares do personagem interpretado por Santoro são inúteis ou incompreensíveis, a não ser para mostrar que todos os homens são uns canalhas. E a sequência da "rebelião" das detentas é muito pobre, talvez por causa das limitações impostas pelo fato de se filmar em ambiente real.

Como ficou observado em algumas críticas e resenhas que examinamos, "Leonera" remete a "Carandiru" (aliás, temos aqui uma coincidência da qual nem nós mesmos nos demos conta: 20 anos do Carandiru real), mas perde na comparação com o filme de Babenco. Este tópico poderia ser desenvolvido. (Frank Ferreira)

24 de setembro de 2012

Nossa próxima atração: "Leonera", em 29/9/2012

CINECLUBE DARCY RIBEIRO apresenta Leonera (Leonera, 2008, Argentina/Brasil/Coréia do Sul, 113 min, cor)
Direção: Pablo Trapero. Roteiro: Pablo Trapero, Alejandro Fadel, Martín Mauretegui, Santiago Mitre. Fotografia: Guillermo Nieto. Montagem: Ezequiel Borovinsky, Pablo Trapero. Música: Intoxicados, Chango Spasiuk, Los Palmeras. Elenco: Martina Gusman, Elli Medeiros, Rodrigo Santoro e outros.


Maternidade, solidão, amor, confinamento e esperança

“Fatos e números: o cenário do filme
Na Argentina, apenas 7% do número total de homicídios cometidos por homens resultam de acessos de paixão. No caso das mulheres, 72% são crimes de paixão.
Escolaridade das mulheres quando ingressam nas prisões: 37% nunca estudaram; 42% completaram o ensino fundamental; 9% terminaram o ensino médio; só 2% ingressaram no ensino superior.
A Penitenciária Feminina Unidade nº 31 “Nuestra Señora de San Nicolás”, em Ezeiza, foi inaugurada em 1996, depois de uma rebelião na Unidade nº 3, que era, até então, o único presídio federal para mulheres. Alegou-se que a nova prisão serviria para proteger as internas grávidas e as mães encarceradas com suas crianças.
Martina Gusman ("Julia")
Em 1997, a lei ampliou de dois para quatro anos o período máximo de permanência de crianças no interior de prisões. Na atualidade, 114 crianças com menos de 4 anos de idade viviam na Unidade nº 31; 63 eram nascidas na prisão e 37 nunca haviam passado para o outro lado dos seus muros.
Apenas 40% das presas eram condenadas. As outras 60% eram rés de processos sem sentenças transitadas em julgado.
As crianças que crescem em prisões adquirem os hábitos da vida carcerária e muitas vezes desenvolvem medo de espaços abertos. Também manifestam manias tais como recusa a abrir ou fechar portas. As crianças que vivem fora da prisão brincam de esconder, as criadas atrás das grades só brincam nas ‘horas de visita’.

Notas da produção
‘Leonera’ foi filmado na província de Buenos Aires, entre setembro e dezembro de 2007. Como nunca antes na cinematografia argentina, foi rodado, na maior parte, dentro de uma penitenciária de segurança máxima, com verdadeiros internos como extras.
Alguns dos personagens guardas e agentes prisionais também foram interpretados por funcionários do Sistema Penitenciário Buenairense.
As filmagens foram feitas atrás das gredes. Todo o elenco e a equipe técnica conviveram com o sistema penitenciário na maior parte da produção.
Muitas vezes, obter permissão para trabalhar nesses locais e com esses atores parecia mais uma tarefa judiciária do que uma filmagem. Foram necessárias autorizações legais, carimbos, documentos e assinaturas de muitas autoridades.

Notas do diretor
Pablo Trapero
‘Olha, papai! É cor de rosa!’, disse Matei, que tinha 4 anos. Tirei os olhos da rodovia e vi aqueles blocos de concreto enormes, unidades penitenciárias. De fato, uma era colorida.
As palavras de meu filho sobre o detalhe cromático dos muros foram a semente de ‘Leonera’.
Unidades em que vivem mulheres com crianças. Crianças que perdem sua liberdade para ficar perto das mães. Mães que fariam qualquer coisa pelo bem-estar de suas crianças, mesmo quando o confinamento trama contra esse direito elementar.
Durante a pesquisa, descobrimos que essa realidade é fruto de um esquema conhecido que se repete nos sistemas penitenciários de muitos países.
O estranho é que poucos concordam sobre a idade máxima até a qual uma criança pode viver na prisão. Alguns acham que é 1 ano e meio; outros, 6 anos. Na Argentina, é até os 4 anos. Novos desacordos e uma certeza: as sociedades ignoram esta situação, poucos ousam erguer a voz em defesa desta ou daquela posição. É duro ver crianças na prisão; mais duro ainda é legislar em favor destas crianças inocentes.
O objetivo de ‘Leonera’ é construir não só uma narrativa cinematográfica, mas também espaço para debate e reflexão. Maternidade, solidão, amor, confinamento e esperança são os eixos deste filme” (adaptado do press release do filme).

CINECLUBE DARCY RIBEIRO
Depois de um grande filme, sempre um bom debate

Data: sábado, dia 29 de setembro de 2012
Hora: 13h
Local: Sala Florestan Fernandes (r. General Jardim, 522, Casarão, próximo à estação República do metrô)