27 de junho de 2013

Nossa próxima atração: "O substituto", de Tony Kaye, em 29 de junho de 2013

CINECLUBE DARCY RIBEIRO exibe O substituto ("Detachment", 2011, EUA, 97 min, cor)
Direção: Tony Kaye. Roteiro: Carl Lund. Fotografia: Tony Kaye. Montagem: Michelle Botticelli, Barry Alexander Brown, Geoffrey Richman. Música: The Newton Brothers. Elenco: Adrien Brody, Marcia Gay Harden, Lucy Liu, Tim Blake Nelson, Louis Zorich e outros.



O veneno do sistema escolar público  



Em 15 de março de 2012, o crítico Peter Travers escreveu no Rolling Stone norte-americano:
"Adrien Brody merece elogios superlativos por sua atuação no ao mesmo tempo hipnótico e enlouquecedor 'O substituto'. Personificando Henry Barthes, um professor substituto de ensino médio que tenta se resguardar do veneno do sistema de ensino público, Brody enfrenta todos os desafios de um papel exigente.
O roteiro de Carl Lund extravasa de gente no limite. A diretora Carol Dearden (uma impressionante Marcia Gay Harden) é importunada por funcionários públicos que veem sua escola apenas como um imóvel valorizado. Enquanto a orientadora pedagógica (uma vívida Lucy Liu) e um professor (Tim Blake Nelson) quase sucumbem ao descontrole emocional, Henry luta com seus próprios problemas: o avô moribundo (Louis Zorich) e uma prostituta adolescente (Sami Gayle), à qual ele oferece abrigo. Como a estudante obesa (Betty Kaye, filha do diretor Tony Kaye) incapaz de lidar com o excesso, Henry quer fugir.

Um diretor que se veste de Osama bin Laden?

É um amontoado de horrores, e o diretor Kaye faz muito pouco aliviar essa carga. Lembram-se de Kaye? Ele é uma antiga lenda da propaganda que dirigiu o extraordinário 'A outra história americana' ('American History X', 1988) e depois brigou para retirar seu nome dos créditos do filme. É o sujeito que pagou anúncios em que se declarava o 'maior diretor inglês depois de Hitchcock', ficou famosos por se vestir como Osama bin Laden. De fato, Kaye é um imenso talento. E 'O substituto' prova isso, mesmo com a sobrecarga de truques que nos afastam animadamente da história, entrevistas do tipo documentário com professores e referências literárias que tanto são poderosas como presunçosas. Contudo, com Brody no olho do furacão, 'O substituto' nos atinge com força."



CINECLUBE DARCY RIBEIRO
Depois de um grande filme, sempre um bom debate

Com o historiador e professor Ricardo Streich (FFLCH-USP)

Data: sábado, dia 29 de junho de 2013
Hora: 14h
Local: Sala 51 (r. General Jardim, 485, próximo à estação República do metrô)


16 de junho de 2013

Garatujas sobre a sessão de ontem (15.06.2013)

Assisti "A Língua das Mariposas" pela primeira vez quando eu tinha 16/17 anos, lembro que me incomodou muito, mas eu não conseguia compreender o peso da sequência final. Depois de uns dois anos voltei a assistir, dessa vez chorei, mas, ainda assim aquela situação paradoxal não me era concreta. Ontem no cineclube, tomada por uma junção de subjetividades; talvez um pouco de conhecimento adquirido com leituras, com a faculdade, talvez o tanto que me senti mal com as situações ocorridas na manifestação, talvez por um deslocamento, o colocar-me em 1935/36 e não saber se tomada por um medo total não seria eu também uma traidora, se, como disse a Profa. Eliana Asche, o externo não imperaria sobre mim.

Assim que, para além, muito além, de questões cinematográficas, da educação libertadora, da relação professor/aluno, do descobrimento de mundo de Moncho, o que me fez chorar ao ponto de ter que ir para o banheiro tentar controlar a onda que estava vindo, foi pensar até onde o homem realmente se dispõe pelos seus afetos, pelo que acredita, pelo que pensa ser?

Espero que consigamos nos dispor para além do terror que esse externo se alimenta.
Seja na linha de frente ou num texto rascunhado depois de uma sessão cineclubista.


Para os ouvidos:  Empdy x Ed Greens - Screaming Revolution 


Daisy Serena

2 de maio de 2013

Nossa próxima atração: "Barravento", de Glauber Rocha, em 4 de maio de 2013


CINECLUBE DARCY RIBEIRO apresenta Barravento (1961, Brasil, 78 min, p&b)
Direção: Glauber Rocha. Roteiro: Glauber Rocha, Luiz Paulino dos Santos, José Teles de Magalhães. Fotografia: Tony Rabatoni. Montagem: Nelson Pereira dos Santos. Música: Canjiquinha, Batatinha. Elenco: Antonio Pitanga, Luiza Maranhão, Lucy de Carvalho, Aldo Teixeira, Lídio Santos e outros.


O primeiro longa-metragem de Glauber Rocha. Embora datado e produzido em condições muito adversas, é um belo e digno estudo sobre a exploração dos trabalhadores na pesca praieira e do papel da religião, em particular a de matriz africana, nas condições de alienação dos pescadores


O cineasta em crise

“Eu filmei ‘Barravento’ num estado de crise, abandonava as ideias da adolescência... Diferentes dos intelectuais franceses, nós temos uma formação cultural muito confusa, lê-se primeiro os dadaístas, depois a tragédia grega. Conhecemos o romance americano de Faulkner e em seguida descobrimos Rimbaud e Mallarmé. As universidades não funcionam mesmo, os livros chegam numa grande desordem. A formação de um jovem brasileiro é incoerente [...]

“Éramos eisensteinianos”

Nessa época, eu era surrealista, futurista, dadaísta e marxista ao mesmo tempo. No Brasil, por exemplo, todas as teorias de Eisenstein chegaram em tradução espanhola e depois portuguesa e, como os cineclubes e as cinematecas são bem organizados [na Europa], a obra de Eisenstein era muito conhecida lá. Nós éramos eisensteinianos e não admitíamos que se pudesse fazer um filme a não ser com montagem curta, primeiros planos, etc. ‘Rio, 40 graus’ [Nelson Pereira dos Santos, 1955] foi influenciado pelo neorrealismo. Gostamos muito do filme de Nelson porque era de fato o primeiro filme brasileiro, mas fazíamos ressalvas porque não era um filme eisensteiniano. [...]

Um filme “verdadeiro”

‘Pátio’ [curta-metragem de Glauber, de 1959] é um filme feito de metamorfoses, de símbolos, de montagem dialética. ‘Barravento’ foi feito num outro espírito, mais direto, mais verdadeiro, cheguei a registrar a música negra ao vivo. É um filme mais perto da realidade porque já tínhamos visto nessa época ‘Roma, cidade aberta’ e ‘Paisà’ [Roberto Rossellini, 1945 e 1946, respectivamente] e a descoberta de Rossellini através desses dois filmes era uma espécie de antieisensteinianismo. Em ‘Barravento’, sente-se então essa influência, mas existem resíduos eisensteinianos, e primeiros planos no estilo de ‘Que viva México!’ [Serguei Eisenstein & Grigori Aleksandrov, 1932]" (Glauber Rocha, "Revolução do Cinema Novo", São Paulo, Cosac Naify, 2004, p. 112).


CINECLUBE DARCY RIBEIRO
Depois de um grande filme, sempre um bom debate
Debatedores convidados: Sérgio Cumino (ator e diretor teatral, poeta e colunista sobre religiões de matriz africana) e Elizabete do Nascimento (advogada especializada em responsabilidade civil)

Data: sábado, dia 4 de maio de 2013
Hora: 14h
Local: Sala Florestan Fernandes do Casarão (r. General Jardim, 522, próximo à estação República do metrô)

24 de abril de 2013

Sessão 20.04.2013 - Festen | As regras do Dogma 95



        Darcyneclubistas,

 
        Sábado passado (20.04.2013) exibimos o primeiro filme - Festen (1998) Thomas Vinterberg - do Dogma 95, movimento cinematográfico criado pelos diretores Lars Von Trier e Thomas Vinterberg em 1995, que tornou-se público em março do mesmo ano quando foi divulgado seu manifesto. Antes da sessão foi entregue uma folha com as regras do movimento, então, venho aproveitar e colocar aqui também.



1.   As filmagens devem ser feitas em locações. Não podem ser usados acessórios ou cenografia (se a trama requer um acessório particular, deve-se escolher um ambiente externo onde ele se encontre).
2.   O som não deve jamais ser produzido separadamente da imagem ou vice-versa. (A música não poderá ser utilizada a menos que ressoe no local onde se filma a cena).
3.   A câmera deve ser usada na mão. São consentidos todos os movimentos – ou a imobilidade – devidos aos movimentos do corpo. (O filme não deve ser feito onde a câmera está colocada; são as tomadas que devem desenvolver-se onde o filme tem lugar).
4.   O filme deve ser colorido. Não se aceita nenhuma iluminação especial. (Se há muito pouca luz, a cena deve ser cortada, ou então, pode-se colocar uma única lâmpada sobre a câmera).
5.   São proibidos os truques fotográficos e filtros.
6.   O filme não deve conter nenhuma ação "superficial" (noutras palavras, é vetada a ocorrência de homicídios, armas etc.).
7.   São vetados os deslocamentos temporais ou geográficos. (O filme se desenvolve em tempo real).
8.   São inaceitáveis os filmes de gênero.
9.   O filme final deve ser transferido para cópia em 35 mm, padrão, com formato de tela 4:3. (Originalmente, o regulamento exigia que o filme deveria ser filmado em 35 mm, mas a regra foi abrandada para permitir a realização de produções de baixo orçamento.)
10. O nome do diretor não deve figurar nos créditos.
 




Referência:
http://www.cinemateca.gov.br/programacao.php?id=47


Quem quiser saber mais sobre:


9 de abril de 2013

Afinal, o que é cineclube?


Vou aproveitar a mensagem do Rafa na lista de discussão do Cineclube Darcy Ribeiro e sua manifestação de estranheza quanto a um evento que tem cara de atividade cineclubista, mas não é, para resumir algumas ideias sobre nossa atividade e nossos interesses.
A programação “Em cena — ‘As aventuras de Pi’” da Associação Palas Athena, de fato, é um “curso” pago que só acontecerá em determinado dia do mês de abril. Aos interessados recomenda-se assistir o filme antes da “discussão e abordagem” proporcionada por um “especialista”. Com isso, a duração do evento se reduz para 2h (o filme tem 2h 7min de duração). Isso não é atividade cineclubista.
Cineclube, para resumir, é a forma coletiva e democrática de organização associativa do público consciente em torno da obra de arte cinematográfica. O que distingue um cineclube de outras formas de organização?

Definição histórica

Há uma definição de cineclube que foi desenvolvida ao longo de 100 anos no mundo inteiro e, no Brasil, chegou a ser reconhecida, graças às gestões da organização cineclubista nacional, pela Instrução Normativa nº 63, de 2 de outubro de 2007, da Agência Nacional de Cinema (Ancine). Segundo essa definição, o cineclube é uma associação de pessoas democraticamente dirigida, sem fins lucrativos e com um compromisso ético e estético com a arte cinematográfica, em particular com o cinema nacional. Entre nós, essa configuração é regida pela última versão do Código Civil Brasileiro.
Então, o cineclube é uma associação de pessoas democraticamente dirigida. Isso significa, em primeiro lugar, que entidades, ainda que representadas por pessoas, não devem fazer parte do cineclube. Não teria sentido incluir como associados de um cineclube empresas (produtoras, distribuidoras, exibidoras ou conservadoras de filmes, por exemplo), públicas ou privadas. “Democraticamente dirigida” significa ter um projeto continuado de atividades debatido por todos e deliberado pela maioria dos associados (em assembleia geral), um grupo de associados (que pode ser denominado “comissão diretora”, como preveem, por exemplo, os estatutos do Cineclube Darcy Ribeiro aprovados pela sua assembleia de fundação realizada em 28 de outubro de 2005) encarregado de pôr em prática esse projeto e outro grupo (“conselho fiscal”, no Cineclube Darcy Ribeiro) encarregado de fiscalizar as atividades do primeiro; esses associados com funções específicas devem ter mandato e condições de recondução ao cargo estatutariamente fixados. Não estamos falando, é óbvio, dos participantes de um “curso” que dura apenas duas horas.
No ambiente do legítimo cineclubismo, denominamos a construção de uma estrutura como essa de “organizar o público”, pois os associados dos cineclubes constituem a parte mais consciente, criativa e crítica dos espectadores de cinema. Isso é diferente de “formação de público” ou “formação de plateias”, em que grupos desorganizados de espectadores são condicionados a presenciar de maneira bem comportada, alienada e inconsequente a programas definidos por “curadorias” autorizadas e dirigistas, mas sempre alheias à comunidade cineclubista. Por isso, os autênticos cineclubes podem reclamar o papel social de representantes do público de cinema e fazer valer a Carta dos Direitos do Público aprovada pela Federação Internacional de Cineclubes em 18 de setembro de 1987.

Sustentabilidade

“Sem fins lucrativos”, como todos sabem, significa que na entidade não pode haver apropriação individual de eventuais excedentes dos recursos obtidos pelos meios estatutariamente fixados, depois de abatidas as despesas. Isso não quer dizer que o cineclube é uma ilha de gratuidade em meio a um oceano de atividades econômicas, muitas das quais dirigidas com o objetivo exclusivo de auferir lucros. O funcionamento continuado de qualquer cineclube sempre acarreta mais ou menos gastos, com equipamentos e/ou sua manutenção, materiais de consumo, locações, etc. 
A prática centenária do cineclubismo mostra que, para preservar a independência da estrutura cineclubista associativa e democrática, é importante que os associados assumam coletivamente esses encargos (por meio do pagamento de mensalidades, taxas de manutenção ou outras formas de contribuição voluntária) ou a obtenção de recursos junto a patrocinadores, parceiros, etc. Nessas condições, práticas alienantes e alienadas como “crowdfunding” nada acrescentam, muito pelo contrário, à prática cineclubista; a adesão dos cineclubes ao sistema de “vale cultura” — que diz respeito às relações entre patrões e empregados, de um lado, e ao financiamento oficial à produção e à distribuição artística, por outro — deve ser objeto de amplos debates e reflexões.

O debate indefectível

Finalmente, o compromisso ético e estético com o cinema, especialmente o nacional, envolve atitudes, escolhas e manifestações coletivas. A primeira delas é o indispensável debate após a exibição dos filmes (que deve ser feita para todos, ao mesmo tempo e no mesmo local, para que de fato possa ser considerada uma experiência coletiva). O indefectível debate — livre, aberto, sobre todos os temas que o filme possa ter suscitado, com a participação de todos —  é a marca característica da atividade cineclubista. (Obviamente, há outras tarefas encontradiças nos cineclubes: redação e divulgação de textos — resenhas, fichas técnicas, críticas mais ou menos especializadas, etc. —, mostras, seminários, encontros, participação em entidades representativas, realização cinematográfica e, hoje, videográfica, etc.) 
Mas o fato de discutir um filme em grupo e em dada ocasião não configura cineclube ou atividade cineclubista. Não existe “sessão cineclubista” isolada no tempo e no espaço. Nem “realização de um cineclube” em meio a outras atividades, numa comemoração qualquer. (Frank Ferreira)

3 de abril de 2013

Nossa próxima atração: "Bagatela", de Clara Ramos, em 6 de abril de 2013


CINECLUBE DARCY RIBEIRO apresenta Bagatela (2008, Brasil, 53 min, cor)
Direção: Clara Ramos. Roteiro: Clara Ramos. Documentário, coprodução de Clara Ramos, Polo de Imagem, Fundação Padre Anchieta (TV Cultura).



Preso por uma bagatela

Em um país de desvios financeiros milionários e CPIs que não resultam em prisão, um trabalhador que tenta levar para casa um frango que foi jogado no lixo vai para a cadeia. Afinal, o sistema penal foi construído para punir quem?
No Direito Penal, bagatela significa insignificância. No documentário “Bagatela”, de Clara Ramos, são conhecidas as histórias de mulheres presas por pequenos furtos, além da opinião de pessoas diretamente ligadas ao sistema penal, como os juízes de São Paulo Vico Mañas, Marcelo Semer e Airton Vieira.

Pequenos mesmo

No filme, o espectador entra em contato com casos como o de Sueli, que ficou dois anos na prisão por ter roubado um queijo e duas bolachas. Por sua vez, Maria Aparecida foi presa por furtar xampu e condicionador. Ela tem problemas mentais e sofreu agressões na prisão. São essas as causas às quais a advogada Sonia Drigo, inspiração para o documentário, se dedica gratuitamente. A advogada e a diretora do filme se conheceram em 2005, durante a gravação de outro projeto.
De acordo com Clara Ramos, a intenção é expor uma série de opiniões diferentes. No documentário, é possível ver críticas sobre o excesso de punição em situações singelas como essa, já que isso ajuda também a reforçar o processo de criminalização da pobreza. Ao mesmo tempo, opiniões completamente favoráveis a esse tipo de pena são exibidas, deixando que o espectador tire suas próprias conclusões (extraído de www.canalibase.org.br/o-principio-da-bagatela).


CINECLUBE DARCY RIBEIRO
Depois de um grande filme, sempre um bom debate
Debatedores convidado: Clara Ramos, diretora do documentário, e a advogada Sônia Drigo, uma das entrevistadas

Data: sábado, dia 6 de abril de 2013
Hora: 14h
Local: Sala Florestan Fernandes do Casarão (r. General Jardim, 522, próximo à estação República do metrô)

18 de março de 2013

Nossa próxima atração: "Crash — Estranhos prazeres", em 23/3/13


CINECLUBE DARCY RIBEIRO apresenta Crash — Estranhos prazeres (Crash, 1996, Canadá/Reino Unido, 100 min, cor)Direção: David Cronenberg. Roteiro: David Cronenberg. Fotografia: Peter Suschitzky. Montagem: Ronald Sanders. Elenco: James Spader, Holly Hunter, Rosanna Arquette, Deborah Kara Unger e outros.



Para perdoar nossos próprios pecados


“Todos os principais personagens de ‘Crash’ são desesperadamente fascinados por uma conexão entre erotismo e acidentes automobilísticos.
Mas é óbvio que não há tal conexão. Alguém que fique excitado ao entrar numa contramão a 100 quilômetros por hora é alguém que não está atento ao tráfego. Até os sadomasoquistas precisam de certo grau de controle. A ideia de buscar deliberadamente a morte em um carro acelerado não atrai ninguém; quem o faz, busca o suicídio, não o êxtase.
‘Crash’ mostra personagens fascinados por um fetiche sexual que, de fato, não é de ninguém. Cronenberg fez um filme que é pornográfico na forma, mas não no resultado. Basta substituir os carros, as cicatrizes, as muletas, o sangue coagulado e as feridas pelos adereços próprios dos filmes de sexo para se ter um filme pornô. Mas ‘Crash’ é tudo, menos pornográfico: trata da mente humana, da forma como somos escravizados pelas coisas especiais que nos excitam e nos perdoamos nossos próprios pecados.

Quando o reitor de uma universidade faz ligaçoes telefônicas depravadas, quando um astro do cinema ou um pastor da TV pegam uma prostituta na zona do meretrício, perguntamos: o que esses caras estão pensando? A resposta é que estão pensando: a) ‘Eu quero fazer isso’; e b) ‘Eu consigo fazer isso.’ ‘Crash’ é um filme que entende esse tipo de pensamento. Um dos personagens fala de ‘uma psicopatologia benévola que nos acena convidativamente’. É um filme estranho e introspectivo sobre a compulsão sexual humana. Ao eliminar expressamente tudo que qualquer espectador possa considerar remotamente erótico, Cronenberg conseguiu imprimir uma espécie de pureza gélida e abstrata ao seu tema” (Roger Ebert, 21 mar. 1997).













CINECLUBE DARCY RIBEIRO
Depois de um grande filme, sempre um bom debate
Debatedor convidado: prof. dr. Luiz Augusto Contador Borges

Data: sábado, dia 23 de março de 2013
Hora: 14h
Local: Sala Florestan Fernandes do Casarão (r. General Jardim, 522, próximo à estação República do metrô)




3 de março de 2013

Nossa próxima atração: "Holy Motors", em 9/3/2013


CINECLUBE DARCY RIBEIRO apresenta Holy Motors (Holy Motors, 2012, França/Alemanha, 115 min, cor)
Direção: Leos Carax. Roteiro: Leos Carax. Fotografia: Caroline Champetier. Montagem: Nelly Quettier. Elenco: Dennis Lavant, Edith Scob, Eva Mendes, Kylie Minogue, Michel Piccoli e outros.


Onze personagens em busca de um ator

“Surreal, circular, aberto e indefinido, Holy Motors é um daqueles filmes que provoca reações e interpretações diversas. Em sua construção complexa e contando com a fantástica interpretação de Denis Lavant, intriga o público logo nos primeiros minutos, metalinguísticos e esteticamente perfeitos, e não deixa de fazê-lo por nem um instante sequer. Nem mesmo com os créditos finais que chegam com algumas dicas, mas sem fazer questão de muitos esclarecimentos e subjetivam ao máximo a experiência.

Esta grande ópera sobre o fim da arte no cinema acontece em um dia na vida de Oscar. Em sua limusine branca, acompanhado de sua motorista Céline, vê-se a transformação deste homem em vários outros, com interesses e realidades bem diversas. [...] Entre uma personalidade e outra, dentro da limusine que não para nunca, seu camarim, Oscar se prepara para o próximo compromisso. Como a personificação das muitas máscaras e posturas assumidas no dia a dia por pessoas comuns e, como ofício, por aqueles que atuam.
Essa interpretação da interpretação nunca está restrita e pode ser percebida no roteiro de Carax. Lavant interpreta Oscar que interpreta outros e que interage com pessoas que provavelmente também estejam atuando, não se sabe. Ainda que o diretor e roteirista seja bem preciso ao demonstrar que está falando de sua arte, essa mistura de vida com ficção segue aquilo que o público tem vontade de ver, a história que ele quer que seja contada. E é aí que reside a genialidade da obra. [...]”

Um sentido, não uma solução

“Os poucos minutos de silêncio e a vista da noite parisiense permitem uma volta rápida à memória recente de cada uma das histórias passadas com essa nova percepção. Fazem sentido o público apático da primeira cena e uma espécie única de vida que só acontece nos corredores da sala de projeção; diálogos técnicos e insignificantes; o momento da captação que transforma o que é naturalmente bonito em algo não tão belo assim; a beleza vazia; a simplificação de relações humanas; a violência, entre outros. Mas não existe uma solução [...]

Visualmente perfeito e com uma organicidade ímpar, Holy Motors fala sobre modernidade, vida e criação da melhor maneira que uma obra de arte poderia fazer. Sem tentar guiar, manipular e invadir o espaço que não lhe pertence, mas perturbando e provocando sempre. Vale a pena se perder nesse caminho” (Cecília Barroso, “Cenas de cinema”, 29 nov. 2012).



CINECLUBE DARCY RIBEIRO
Depois de um grande filme, sempre um bom debate

Data: sábado, dia 9 de março de 2013
Hora: 14h
Local: Sala Florestan Fernandes do Casarão (r. General Jardim, 522, próximo à estação República do metrô)

21 de fevereiro de 2013

Sobre “Febre do rato”, de Cláudio Assis: a economia política do erotismo


“Até a anarquia precisa de tradição!”

No seu terceiro longa-metragem, Cláudio Assis consegue equilibrada combinação de recursos cinematográficos e referências narrativas

Para se institucionalizar, a teatral anarquia do comportamento do protagonista Zizo deve aderir à tradição, em busca do fôlego vital, debatendo-se como os ratos que mal conseguem sobrenadar nas águas nos esgotos.
Além de escolher seu alvo preferencial (que é a sociedade burguesa simbolizada pelos edifícios que desenham o skyline da cidade de Recife vista dos rios que a cortam), Zizo precisa calcular o momento politicamente mais incorreto, de modo a ser mais eficaz, para lançar, no rosto do inimigo de classe, seu lúmpen-manifesto, seu discurso condenatório, quase profético. No dia da comemoração mais importante da mais importante das instituições — respectivamente, o Sete de Setembro e a Pátria, com “P” maiúsculo —, o poeta destrambelhado e seu rarefeito grupo de admiradores se livram do pouco que ainda os liga a uma sociedade da qual voluntariamente se colocam á margem.
A Pátria é simbolizada pela violência e pelas fardas de soldados e policiais, em contraste com as roupas paisanas, reduzidas e andrajosas da maior parte dos personagens. Em contraste também com os trajes que Eneida (a amada de Zizo, a Dulcineia inalcançável desse Dom Quixote recifense) usa não de forma marcial, mas para realçar as formas corporais que tanto despertam em Zizo a paixão carnal.
É o clímax do filme — que poderia ter como subtítulo “Vida, obra, paixão e morte do poeta torto Zizo”.

Referências recifenses


Uma das melhores características de Febre do rato é a riqueza de referências e citações.
Uma referência cinematográfica muito evidente é A margem (1967), de Ozualdo Candeias, um dos filmes mais lembrados quando se fala do ciclo do “cinema marginal” paulistano. Junto a um rio Tietê menos poluído que hoje e com a cidade de São Paulo no horizonte cinzento, a câmera inquieta de Candeias passeia sobre um grupo de homens e mulheres que tentam inutilmente compartilhar sua marginalidade, seu não convencionalismo, seu desejo sexual e sua indigência.
Outras referências estão mais diretamente ligadas a Recife, o cenário do filme de Claudio Assis.
Os versos e a oratória escandalosa de Zizo são evidentemente inspirados na vida e na obra do poeta Augusto dos Anjos (1884-1914), paraibano que se formou em Direito no Recife. Foi autor de uma poesia personalíssima, erudita, pessimista, escatológica, que escandalizou e seduziu na sua época (ver, por exemplo, aqui).
Zizo também fala de Josué de Castro (1908-1973), sociólogo e médico recifense, autor dos clássicos Geografia da fome (1946), Geopolítica da fome (1951) e Sete palmos de terra e um caixão (1965). Deputado federal, foi cassado pelo golpe militar de 1964 e, exilado, presidiu o Fundo das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO). No filme, Zizo resume o “ciclo do caranguejo” descrito por Castro, um circuito alimentar que reúne humanos e crustáceos em mútua degustação nos mangues poluídos de Recife.
Pernambucano de Olinda, o compositor Chico Science (1988-1997) também inspira Zizo e foi inspirado por Josué de Castro, ao criar o movimento Mangue Beat, montar sua banda Nação Zumbi e gravar, em 1994, Da lama ao caos.

A economia política do erotismo


A sempre excepcional fotografia em p&b de Walter Carvalho é o recurso visual adequado à urgência de respostas que a poesia de Zizo exprime.
As perspectivas inusitadas, às vezes a pino sobre a ação, mostram/escondem corpos sensualmente modelados pela luz dura e tropical, constroem espaços amplos, que intensificam a solidão, ou reduzidíssimos, que potencializam a angústia. Tudo, em seguida, combina-se por meio da montagem opaca que não confunde com o ilusionismo fácil e vertiginoso da comédia inspirada nas produções de veiculação televisiva. Pelo contrário: a suavidade cênica e a fluidez de movimentação, no tratamento dado a certas passagens de crueza quase pornográfica, permitem ao espectador uma fruição poeticamente erótica, porque criativa e, ao mesmo tempo, abertas a múltiplas leituras e interpretações. Essa economia política da imagem se repete/se revela na colagem de planos/folhas xerocadas do corpo de Eneida que Zizo reúne como outros tantos versos para erigir o corpo fantasmático de sua amada.
No entanto, quem é o interlocutor da poesia de Zizo? A quem ele interpela, nas ruas sujas, nos quintais pobres e nos porões entulhados que frequenta, com sua corte de marginalizados? Quem ouve, com ele, a cacofonia de ruídos orgânicos e maquinais que sonorizam as pausas e as correrias de Zizo?
Com a palavra, o espectador.
(Frank Ferreira)


FEBRE DO RATO (Cláudio Assis, 2011, Brasil, 110 min)
Direção: Cláudio Assis. Roteiro: Hilton Lacerda. Fotografia: Walter Carvalho. Montagem: Karen Harley. Música: Jorge du Peixe. Elenco: Irandhir Santos, Nanda Costa, Matheus Nachtergaele, Juliano Cazarré, Conceição Camaroti, Maria Gladys, Angela Leal, Mariana Nunes, Victor Araújo, Hugo Gila, Tânia Granussi e outros

DATA: Sábado, 23 de fevereiro de 2013
HORA: 14:00h
LOCAL: R. General Jardim, 522, sala Florestan Fernandes

17 de fevereiro de 2013

Nossa próxima atração: "Febre do rato", em 23/2/2013


"Até a anarquia precisa de tradição!"

"FEBRE DO RATO é, sem dúvida, o mais belo filme de Assis. Extremamente poético, usa os versos de seu roteirista Hilton Lacerda e transpira poesia nos quadros cuidadosamente fotografados em preto e branco por Walter Carvalho. O elenco é primoroso, encabeçado por um inspiradíssimo Irandhir Santos, que assume a alma de o filme e dá um show de interpretação, permanecendo com os espectadores muito tempo depois do filme ser visto" (Cecília Barroso, no site "Cenas de cinema", em 24 de junho de 2012).

FEBRE DO RATO (Cláudio Assis, 2011, Brasil, 110 min)
Direção: Cláudio Assis. Roteiro: Hilton Lacerda. Fotografia: Walter Carvalho. Montagem: Karen Harley. Música: Jorge du Peixe. Elenco: Irandhir Santos, Nanda Costa, Matheus Nachtergaele, Juliano Cazarré, Conceição Camaroti, Maria Gladys, Angela Leal, Mariana Nunes, Victor Araújo, Hugo Gila, Tânia Granussi e outros

DATA: Sábado, 23 de fevereiro de 2013
HORA: 14:00h
LOCAL: R. General Jardim, 522, sala Florestan Fernandes

16 de fevereiro de 2013

Programação primeiro semestre de 2013!

Sempre às 14:00h


PRÓXIMA SEMANA: 23 de fevereiro: A FEBRE DO RATO (Cláudio Assis, 2011, Brasil, 110 min, p&b)
O poeta Zizo, possuído pela “febre do rato”, percorre as ruas de uma Recife nada turística, no expressivo filme roteirizado por Hilton Lacerda e fotografado por Walter Carvalho.

9 de março: HOLY MOTORS ("Holy motors", Leos Carax, 2012, França/Alemanha, 115 min, cor)
O mesmo ator faz onze diferentes personagens, homens e mulheres, ao longo de um único dia e a bordo de uma limusine que as leva de uma situação a outra, percorrendo sem cessar uma Paris magicamente cinematografada.

23 de março: CRASH, ESTRANHOS PRAZERES ("Crash", David Cronenberg, 1996, Canadá/Reino Unido, 100 min, cor)
Personagens em transe, desesperadamente fascinados pela conexão entre o prazer do erotismo e a dor infligida por acidentes automobilísticos. Debatedor já convidado, prof. dr. Luiz Augusto Contador Borges.

6 de abril: BAGATELA (Clara Ramos, 2008, Brasil, 53 min, cor)
A diretora Clara Ramos investiga as consequências de punições excessivas para crimes de menor importância. Debatedores já convidados, Clara Ramos e o prof. dr. Marcos Florindo.

20 de abril: FESTA DE FAMÍLIA ("Festen", Thomas Vinterberg, 1998, Dinamarca/Suécia, 105 min, cor)
Na comemoração dos 60 anos de Helge, diante de três filhos e numerosos convidados, os dolorosos segredos da corrupção familiar são revelados. Um filme do coletivo Dogma 95.


4 de maio: BARRAVENTO (Glauber Rocha, 1962, Brasil, 78 min, p&b)
O primeiro longa-metragem de Glauber Rocha. Embora datado e produzido em condições muito adversas, é um belo e digno estudo sobre a exploração dos trabalhadores na pesca praieira e do papel da religião, em particular a de matriz africana, nas condições de alienação dos pescadores.

18 de maio: JULIETA DOS ESPÍRITOS ("Giulietta degli espiriti", Federico Fellini, 1965, Itália/França, 137 min, cor)
Um dos mais conhecidos e mais poéticos filmes do diretor italiano, o primeiro em que usou película colorida. Nesta explosão de criatividade cinematográfica, Fellini abandona o cada vez mais débil realismo de suas obras anteriores e, por via da personagem-título, ajusta contas com suas fantasias e seu misticismo.


1º de junho: A LÍNGUA DAS MARIPOSAS ("La lengua de las mariposas", José Luis Cuerda, 1999, Espanha, 96 min, cor)
As primeiras relações afetivas de uma criança em idade escolar, no cenário dos primórdios da Guerra Civil Espanhola (1936-1939). Debatedora já convidada: profª drª Eliana Asche.

15 de junho: SONATA DE OUTONO ("Höstsonaten", Ingmar Bergman, 1978, França/RFA/Suécia, 99 min, cor)
A carreira como pianista de fama internacional afastara Charlotte das filhas Eva e Helena. No reencontro das três, aos poucos, a natureza conflituosa de sua relação vem à tona, em um ambiente de angústia, ressentimento e frustração.

29 de junho: O SUBSTITUTO ("Detachment", Tony Kaye, 2011, EUA, 97 min)
A composição comovente e realista desta crônica sobre o cotidiano de um professor substituto se apoia na vida de três gerações de pessoas que não encontram seu lugar definitivo na sociedade atual. Debatedor já convidado: prof. Ricardo Streich,

2 de janeiro de 2013

Texto de Felipe Macedo sobre o centenário do cineclubismo em 2013


2013 — Centenário do Cineclubismo
"Divertir, Instruir, Emancipar"


Uma tradição elitista

Até bem recentemente se costumava localizar o início da história do cineclubismo nos anos 20, mais precisamente em 1920 mesmo, com o surgimento das sessões do Journal du Ciné-club, organizadas por Louis Delluc e, quase simultaneamente, com a fundação do CASA, Clube dos Amigos da Sétima Arte, de Riciotto Canudo, ambos em Paris.
Os trabalhos de autores como Fabio Masala, Filippo de Sanctis e eu mesmo, nos anos 70, colocando o público no centro da questão cineclubista, lançaram as primeiras dúvidas que viriam a abalar essa historiografia. Textos dos Estudos Culturais ingleses, especialmente de Raymond Williams, baseados na teoria da hegemonia de Antonio Gramsci, mostraram também o processo ideológico de apropriação conceitual que ocorre com idéias e práticas originalmente populares. Noel Burch, com seu Da beleza das latrinas,[1] e mais recentemente ainda uma crítica da cinefilia elitista — Cinéfilos e cinefilias —[2] trouxeram especificamente para o campo do cinema e do cineclubismo um esclarecimento mais definitivo de como nossa história foi apropriada durante décadas por uma concepção elitista que só consegue ver cultura e criação onde for capaz de reconhecer uma personalidade especial, um autor. Ou mais, onde essa autoria se exprime de forma tradicionalmente culta, isto é, literária, especializada, e avalizada pelo ambiente artístico e cultivado do momento e/ou de uma posteridade igualmente "informada".
Durante muito tempo o cineclubismo foi identificado — muitas vezes de forma automática, acrítica — com uma concepção de cineclube de elite, animado por connaisseurs, liderados por (e reconhecidos através de) uma grande personalidade, e capazes de produzir uma leitura — na verdade, uma escritura — crítica expressa em termos considerados cultos para o contexto em que se inseriam ou para a avaliação posterior igualmente elitista. Dessa forma, práticas já consolidadas nos meios mais populares só foram reconhecidas quando se associaram a figuras como Delluc ou Canudo, caciques dos salões parisienses de sua época. Principalmente interessado em fidelizar o público leitor de suas revistas — Journal du Ciné-club, depois Cinéa — Delluc promovia sessões de gala com filmes e conferências, repaginando — como se diz hoje em dia — para as elites da capital francesa atividades que os clubes populares já praticavam há um bom tempo. Canudo promovia memoráveis ceias elegantes para debater e valorizar o cinema como arte.
Certamente essas atividades mais chiques também se inscrevem no grande plano geral do cineclubismo; as bem conhecidas personalidades do meio artístico de Paris contribuíram, e muito, para o reconhecimento e a disseminação dos clubes de cinema não apenas naquela cidade, mas também nas grandes capitais de todo o mundo, inclusive na América Latina. Mas não constituem as primeiras experiências cineclubistas, não fundam a história deste nosso movimento. Os anos vinte, tal como se dera um pouco antes com o próprio fenômeno cinematográfico, podem ser considerados como o momento de institucionalização do cineclubismo, quando os elementos de um certo protocolo cinéfilo (Gauthier, 1999) se consolidam justamente numa concepção "culta" e elitista de cineclube.

História do cineclubismo

O mito do cineclube exclusivo do cinéfilo e/ou fanático, contudo, tomou raízes e se propagou por todo o mundo. Quando, 50 anos depois, os primeiros textos avançaram a tese do cineclubismo como organização do público, mal sabiam seus autores que apenas retomavam o projeto que dera origem às primeiras práticas cineclubes e que orientou os primeiros cineclubes. Não existia ainda uma pesquisa histórica sistemática sobre cineclube e organização do público, que é projeto para este século.
Em breves traços: as origens mais distantes do cineclubismo se confundem com outras formas de organização popular: iniciativas autônomas de ajuda mútua, educação, diversão e organização política. De fato, sindicatos, partidos políticos, cineclubes e um sem-número de associações populares têm todos uma origem comum. E também, em grande medida, o espetáculo moderno, que se moldou nessas formas de associação. A conjunção e evolução dessas formas é tema para outros textos mas, simplificando, lembramos que ao longo do século XIX constituíram-se nos meios populares diversos tipos de clubes, voltados simultaneamente para a diversão, o desenvolvimento cultural, a ajuda mútua e a organização política. Neles, frequentemente em torno de uma boa cerveja, os associados, a comunidade, cantava, declamava, debatia, estudava e conspirava pela sua emancipação. Numa outra vertente, igrejas e reformadores morais de todo tipo também empregavam esse recurso para "formar" ou educar para um certo tipo de cidadania. Nas conferências e debates que se promovia nessas organizações utilizavam-se bastante as lanternas mágicas como elemento de ilustração. Com o surgimento do cinematógrafo, ele foi rapidamente incorporado a essas práticas: existem manifestações documentadas, animadas com projeções, pelo menos desde 1898.
Mas é com a institucionalização do cinema — tal como a compreende a historiografia contemporânea –, processo que se inicia com a proliferação das salas fixas a partir de 1905, que irá emergir a forma cineclube, como instrumento de resistência ao modelo de cinema opressor que se desenvolvia. O processo ocorre em todo o mundo, mas talvez de forma mais evidente nos EUA, onde se pode ver mais claramente a relação que se estabelece entre um cinema que vai se definindo como negócio e um novo tipo de público que se forma, mediados por uma linguagem que gradualmente se consolida.
O formato nickelodeon — salas que apresentavam programas sucessivos a preços populares –, surgido no final de 1905, logo se implanta aos milhares. Em 1910, um terço da população estadunidense ia ao cinema uma vez por semana (em 1920, a metade do país); esse público em formação incorporava a mulher e a criança que, na era moderna, partilhavam pela primeira vez o espaço público. Inicialmente visto como vulgar e mesmo perigoso (o ambiente escuro e promíscuo das salas localizadas, em sua maioria, em áreas proletárias) pelos segmentos sociais mais abastados, a massa de cinéfilos era constituída basicamente pela classe operária e pelos enormes contingentes de imigrantes que a vinham ampliar, nesse período de intensa industrialização. O ambiente era animado, muitos se conheciam — muitas das salas ficavam nos bairros mesmo desse público que é o avô do nosso moderno proletariado audiovisual —, ou pelo menos se identificavam, se reconheciam como comunidade, como classe. Todo mundo falava, comentava, cantavam juntos em certas passagens, acompanhados pelo menos por um pianista; frequentemente um narrador ou explicador apresentava ou acompanhava toda a história dos filmezinhos de poucos minutos que compunham um programa também bastante breve. Os temas de sucesso eram populares, tirados da experiência de vida e hábitos culturais daquele público e que lhe podiam interessar. Mas nem a produção nem as salas estavam nas mãos do público.
O cinema que os industriais (foi o capital gerado pelo sucesso da exibição popular que permitiu o estabelecimento dos grandes estúdios e a monopolização mundial da produção e da distribuição) queriam construir não era o mesmo que interessava àquela grande massa popular. O tratamento dos enredos populares era dado a partir do ponto de vista de outra classe social. E o espaço público dos cinemas foi, inicialmente e durante cerca de dez anos, um terreno de conflito, um campo de ferrenha luta de classes. O público se revoltava quando uma greve, por exemplo, feita ali na sua cidade mesmo, era mostrada como uma perfídia de criminosos. Ou quando um personagem de imigrante era tratado como estúpido ou mau caráter. Ria dos poderosos apresentados como generosos e paternais. Comentava, vaiava, assobiava. Saía da sala e às vezes até quebrava umas instalações. Não estava distante perceber que tinha que ter suas próprias salas para ter "seu" cinema.
Do outro lado, o capital tomava medidas para controlar essa massa: surgem as primeiras formas de censura, moral e política; um corpo policial é criado nas salas para conter o público — os ushers são os primeiros "lanterninhas", cuja verdadeira origem é essa, de repressão. Deslocam-se as salas para regiões das cidades de menor concentração operária ou imigrante e o ingresso é gradualmente aumentado, procurando atrair setores da classe média.
Muito simplificadamente, ao final desse longo enfrentamento resulta a formação do que Siegfried Kracauer[3] chamou de público cosmopolita: uma massa sem identidade, silente, controlada e domesticada sob as regras do negócio, objeto — e não sujeito — de um cinema que se quer apenas entretenimento, com uma linguagem linear, literária, transparente e censurada. Um público consumidor. Formado por espectadores.
Mas havia outra vertente: um público que se organizava. Vendo que cada vez mais o cinema se distanciava de seus interesses, de seus gostos, de sua cultura mesmo, diversos grupos tomaram variadas iniciativas. Alugavam-se salas para garantir a exibição de certos filmes boicotados pelo comércio; Steve Ross (1999) aponta produções de grupos sindicais e políticos desde 1908. Tanto na França como nos EUA há referências a atividades sistemáticas de exibição no final da primeira década do século XX. Em boa parte da Europa — como também no Brasil — a igreja católica estimula ou promove diretamente práticas com cinema dissociadas do comércio capitalista, visto por ela como tão nocivo como o socialismo, seu maior inimigo. Na América do Norte esse papel era desempenhado pelas denominações protestantes. A existência de uma rede não comercial de exibições desde o final da primeira década parece ser comprovada pela criação de uma distribuidora de filmes, em 1912, pela organização patronal YMCA (Associação Cristã de Moços): iniciativa voltada tanto para alimentar um circuito cristão como para se contrapor à poderosa influência anarquista, socialista e feminista nos meios sindicais e populares. Em 1911, o jornal L.A. Citizen traz uma breve entrevista com um dos dirigentes de um "cinema socialista", que diz textualmente: "nossa sala é o resultado da rebelião do público contra o que lhe é imposto".
No Brasil, ainda que as pesquisas sejam relativamente poucas, o mesmo caldo de cultura está presente: organizações, jornais, clubes, círculos, ateneus anarquistas e grupos socialistas existem em grande número desde o final do século XIX. As escolas modernas, inspiradas nas teorias do educador anarquista catalão Francisco Ferrer (fuzilado em 1909), espalham-se por vários estados, empregando diversos recursos para ilustrar seus cursos — mas há ainda que se demonstrar o uso do cinema nessas práticas. Também os católicos imitam os franceses e criam por aqui a Boa Imprensa, organização que defende e promove o "bom cinema" e logo terá algumas salas em diferentes estados brasileiros.[4]

O primeiro cineclube

Se são características dos cineclubes justamente o associativismo, o construir coletivo, um certo anonimato — no sentido de inexistência de próceres cultuados - que em grande medida disso decorre, tanto mais difícil é estabelecer uma periodização rigorosa, uma data para um mítico "primeiro cineclube". Mas a História, a memória, a identidade e mesmo a política se assentam também em datas e símbolos que ajudam a construir um patrimônio coletivo a ser compartilhado. Assim, mesmo correndo o risco — de resto benfazejo — de que se comprovem outras iniciativas, parece que a primeira organização do público estruturada como um cineclube (associação democrática sem fins lucrativos e com o projeto de, através do cinema, garantir ao público acesso e participação na construção de um cinema que o representasse) e devidamente comprovada documentalmente é o Cinema do Povo, cooperativa de inspiração anarquista criada em Paris em 1913.
O programa do cineclube foi publicado no jornal Libertaire de 13 de setembro de 1913, e os estatutos da entidade registrados em cartório em 28 de outubro do mesmo ano. Entre os objetivos definidos estatutariamente estavam: "produção, reprodução, venda e locação de filmes", bem como "propaganda e educação através de apresentações artísticas teatrais, conferências, etc." Mais adiante, os estatutos precisavam: "A sociedade se esforçará para elevar a intelectualidade do povo." Os cartazes dos filmes produzidos e apresentados pelo cineclube nos meses seguintes traziam uma espécie de mote ou lema que resume brilhantemente esse ambicioso programa e que guarda total atualidade depois de cem anos, podendo muito bem servir de orientação para os cineclubes contemporâneos: "Divertir, instruir, emancipar."
Outro aspecto que valoriza esse primeiro cineclube é a repercussão que a iniciativa alcançou em várias partes do mundo. Ao que parece, outros cinemas do povo foram criados. No Brasil, a notícia chegou através do militante português Neno Vasco que, expulso daqui pela polícia, escrevia de Portugal para o jornal A Lanterna, de São Paulo, relatando as atividades do cineclube libertário parisiense. Em seu número de 8 de maio de 1914, A Lanterna publicou uma convocação para uma reunião no salão da Lega della Democrazia, na Rua Bonifácio 39, 12º andar, com o objetivo de fundar "uma sociedade cujo objetivo será a propaganda social através do cinematógrafo".[5] Não existe, no entanto, comprovação de que tal sociedade tenha sido realmente fundada — o que poderia nos levar a comemorar o centenário do cineclubismo brasileiro no ano que vem...
Como muitos dos cineclubes que marcam a história do nosso movimento, o Cinema do Povo teve curta duração: além da mobilização para a primeira Grande Guerra, o conflito foi precedido por uma forte perseguição aos movimentos contestadores e pacifistas. A última sessão do cineclube deve ter sido a de 30 de maio de 1914.[6]

Centenário de cineclubismo

O movimento cineclubista vive um momento muito especial em sua história. Tendo criado uma forma institucional e organizativa que lhe é exclusiva, conseguiu mantê-la até essa marca extraordinária de cem anos. Sua força — e igualmente muitas de suas fraquezas — derivam das características que já mencionamos: o associativismo democrático, o caráter não comercial e suas ambições, que nada exprime melhor que o lema do Cinema do Povo: "Divertir, instruir, emancipar."
Essas mesmíssimas características fazem do cineclubismo um incômodo, senão um inimigo da sociedade e economia estabelecidas. Contrariando a iniciativa individual em prol do associativismo e do comunitário, o cineclube perturba a chamada iniciativa privada, o empreendedorismo triunfante de nossos dias, enfim, o comércio, o próprio capitalismo. Pois esse coletivismo do cineclube se completa justamente pela negação do lucro como objetivo. Dessas duas bases em que se assenta o projeto cineclubista resulta, em momentos e contextos diversos, um compromisso com o livre acesso ao audiovisual e à cultura, com a livre expressão da visão das maiorias embebidas na completa diversidade de todas as comunidades, de todos os cantos do mundo. Isso contraria o cinema de vocação hegemônica e dominadora, os valores impostos, a linguagem única, a economia de ocupação e de alienação.
Estes 100 anos foram um centenário de perseguições, proibições e tentativas de cooptação. Desde o primeiro cineclube até hoje, sem descanso e sem exceção, os cineclubes foram proibidos, combatidos — até hoje gente é presa, torturada e morta em decorrência de atividades cineclubistas — ou obliterados por medidas e táticas de mimetismo e neutralização. Da Empresa à Igreja, até cineclubes fascistas se tentou criar!
Hoje o momento é especial porque o avanço da ciência e das tecnologias permite — e não é nada fora de propósito comparar este momento com o do surgimento do cinema e formação do público moderno, quando também o mundo passou por mudanças marcantes e marcadas pelo desenvolvimento tecnológico — vislumbrar uma possibilidade inédita de democratização do acesso não apenas aos produtos audiovisuais, mas principalmente aos meios de produção do audiovisual. E o cineclube pode ser o grande instrumento, a instituição mesmo que sirva de base para a organização do público em cada comunidade, em cada canto do mundo — ao mesmo tempo que em todo o mundo, pelo espaço virtual. Cineclube de um novo público, não mais de consumidores inermes, de consumidores controlados, de espectadores contemplativos, mas de participantes, sujeitos de sua cultura e de sua história.
Mas esses mesmos meios também podem significar um nível inaudito de controle, como o Grande Irmão do Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, que tudo vê, tudo sabe, tudo controla. As ironicamente chamadas redes sociais já são também modos de captação e comercialização da própria subjetividade dos participantes, constituindo-se como uma nova forma da velha mais-valia marxiana: os que não têm os meios de produção não apenas estão condenados a vender sua força de trabalho, mas a ver apropriada a sua subjetividade, transformada em produto e valor. E os cineclubes, nesse ritmo, sofrem o assédio da ideologia individualista, do empreendorismo, do onguismo e, muitos, tornam-se pequenos empreendimentos especializados em que se oferece um serviço, uma mercadoria — filmes — e onde o público não participa, não manda, mas é remetido novamente à condição de plateia, de espectador.
Este centenário é motivo de festa, de comemoração, pela incrível conquista de manter essa luz que o público irradia para projetar o seu cinema, o seu audiovisual: o cinema do povo, de todo o povo. Ou, em outra palavra: do público. Mas é também, como sempre, como ininterruptamente, como é a sina desse mesmo povo-público, ocasião de luta, pois se tanta coisa mudou nestes cem anos, a situação desse povo continua bastante igual. Tanto que ressoa forte como nunca o lema do Cinema do Povo: Divertir! Instruir! EMANCIPAR!

São Paulo, 1º de janeiro de 2013
Felipe Macedo



[1] Burch. Noël. 2007. De la beauté des latrines: Pour réhabiliter le sens au cinema et ailleurs. Paris: L’Harmattan. Sem edição em português.
[2] Jullier, Laurent e Leveratto, Jean-Marc. 2010. Cinéphiles et cinéphilies : Une histoire de la qualité cinématographique. Paris: Armand Colin. Sem edição em português.
[3] Kracauer, Siegfried. [1926] 1987. "Cult of Distraction". New German Critique, vol. 40, inverno, p. 92.
[4] Em 1912, a revista Vozes de Petrópolis já cita salas católicas em Petrópolis, Belo Horizonte e Recife. (Vozes de Petrópolis, julho a dezembro, p. 1259-1261, citado por Almeida, 2011, p. 319).
[5] Figueira, Cristina Aparecidas Reis. 2003. O cinema do povo: um projeto da educação anarquista — 1901-1921. Dissertação de mestrado apresentada na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
[6] Macedo, Felipe. 2010. Cinema do Povo, o primeiro cineclube, acessível em www.felipemacedocineclubes.blogspot.com.